A chave que abre a porta do futuro
Interfarma 29/04/2014

A chave que abre a porta do futuro

Valor Econômico – Especial Saúde

Para não ficar fora das cadeias globais de valor, o Brasil precisa ampliar investimentos, formar mão de obra e criar novas tecnologias.

Toda vez que utiliza o telefone celular, o brasileiro comprova como a inovação facilita a sua vida, trazendo benefícios e serviços impensáveis há uma década. Resume, nas mãos do usuário, a transmutação da inovação em estratégia econômica, a busca incansável dos empreendedores por novidades e os ganhos trazidos com o rompimento de fronteiras tecnológicas. No Brasil, a inovação é um dos fatores-chave para a difícil equação da competitividade. Domínio técnico-científico das formas de produção, formação de mão de obra qualificada e capacidade de criar produtos e serviços são determinantes para o avanço da economia e inserção de bens produzidos por aqui no comércio e na cadeia de valor internacional.

A ousadia necessária para vencer no comércio global eleva a pressão sobre o Brasil, principalmente na indústria. Há duas formas de avaliar os avanços na inovação brasileira: “Podemos comparar o Brasil com o Brasil ou com o resto do mundo”, afirma Antônio Britto, presidente da Interfarma. Nos rankings mundiais utilizados para medir a taxa de inovação, o Brasil é um país bem diferente daquele que figura entre as dez maiores economias do planeta. De acordo com o índice Global de Inovação 2013, publicado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), pelo Instituto Insead e pela Universidade de Comell, o país ocupa a 64ª posição global e está no oitavo posto na América Latina – região onde é a maior economia.

Olhando de forma isolada as listas da cadeia dos fármacos publicadas, o Brasil ocupa o 19º lugar em pesquisa clínica – o que demonstra capacidade para gerar conhecimento -, “mas está em 156° lugar em termos de atratividade da inovação”, lembra Britto. O diagnóstico do executivo é simples: “Ainda temos dificuldade de transformar conhecimento em inovação e estamos muito atrasados no desenvolvimento de tecnologias disruptivas”.

Analisando a corrente de comércio, fica claro que a baixa internacionalização da indústria brasileira se traduz em parca participação nas cadeias globais de valor, que incluem o intercâmbio de produtos intermediários, investimentos e tecnologias. De acordo com números da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), mais de 50% dos bens intermediários constantes na pauta de exportação brasileira são compostos de produtos básicos, como minério de ferro e complexo cia soja. A venda de produtos de alto valor agregado – a exemplo de peças automotivas – ainda se limita ao comércio com a América Latina. Partes e peças de máquinas representam pouco mais de 1% do total de bens intermediários.

A timidez se traduz em ganhos menores para as divisas do país. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as cadeias de alto valor agregado movimentam US$ 20 trilhões anualmente e já respondem por cerca de 60% do comércio mundial. “Mesmo nas multinacionais, o índice de pesquisa e desenvolvimento é baixo no Brasil”, destaca Paulo Mói, superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL). Segundo ele, as empresas internacionais instalam suas fábricas por aqui em uma estratégia clara de conquista de mercado, mas criam pouco. Deixam para a equipe brasileira a tropicalização de produtos e adaptações necessárias. “Temos de atrair os centros de pesquisa que realmente vão inovar no Brasil para criar mais valor aos nossos produtos e serviços”, diz Mói.

Trata-se de uma tarefa árdua, especialmente porque o Brasil não fornece, em quantidade suficiente, o principal insumo para a inovação: mão de obra qualificada. Stefan Wagner, presidente do SAP Labs Latin America, afirma

que a formação de recurso humano é crítica para os projetos do laboratório. A saída para a desenvolvedora alemã foi apostar em uma parceria – que tem sido muito bem-sucedida – com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). A instalação do laboratório no campus da instituição permite a troca de conhecimento com o mundo acadêmico e contribui para a contratação de profissionais bem formados.

O laboratório brasileiro é responsável por adequar a linha de softwares de gestão empresarial da empresa alemã para toda a América Latina. Além disso, a equipe trabalha em sintonia com as outras unidades de pesquisa e desenvolvimento, participando ativamente da equipe global da SAP. “No Brasil, encontramos profissionais muito criativos e atentos às tendências mundiais de inovação. Essa característica é de extrema importância para nossos negócios.” Desde 2006, a SAP investiu R$ 110 milhões na unidade de pesquisa.

A qualidade da academia foi um dos pontos que atraíram o ícone de inovação mundial Google para Belo Horizonte, onde a empresa montou um centro de engenharia. A Universidade Federal de Minas (UFMG) ministra um dos melhores cursos de ciência da computação do país, além de concentrar a maior densidade de pesquisas brasileiras voltadas para a web. O Google já investiu RS 350 milhões e emprega atualmente 100 engenheiros nesse centro. Dele saem inovações para a plataforma mundial da companhia.

Apesar das ilhas de excelência existentes no Brasil, ainda é difícil congregar a qualidade acadêmica com a transferência de tecnologia para o mercado. “Não somos competitivos para inovar, e isso engloba uma série de fatores, desde o custo Brasil até a falta de cultura do empresário em assumir riscos nos negócios”, lembra Carlos Calmanovici, pr
esidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).

O Brasil também tem bons exemplos de empresas inovadoras e com inserção internacional. Embraer, Pe-trobras, Embraco, Braskem e Totvs são casos de sucesso e prova de que é possível atender o mercado interno e ainda vender para o exterior com qualidade e inovação. O esforço para ampliara lista e fortalecer a indústria nacional está refletido em programas de estímulo, entre eles o Inova Empresa – ação do governo federal lançada em março do ano passado com recursos de RS 32,9 bilhões. Ao completar um ano, o saldo do programa é positivo e mostra a disposição do empresário brasileiro para investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação. “Se alguém me dissesse há cinco anos que a procura por financiamento seria tão grande, eu não acreditaria”, confessa Glauco Arbix, presidente da agência de fomento Finep.

Ele se refere ao valor financeiro dos projetos enviados para análise à Finep e ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que concentram o repasse dos recursos para o programa. As duas instituições contabilizaram R$ 93,4 bilhões em projetos depositados. Dos R$ 32,9 bilhões previstos para o Inova Empresa em dois anos, R$ 16 bilhões já foram tomados pelos empresários, sendo R$ 9 bilhões em contratos do BNDES e R$ 7 bilhões da Finep. “Os recursos estão alocados em 12 iniciativas em diferentes setores”, conta Arbix. Ao todo, 223 instituições ligadas à ciência e tecnologia – como institutos e centros de pesquisa – estão envolvidas nos projetos aprovados. 0 programa abarcou ações de 2.667 empresas. “A grande evolução está na conexão entre estímulo e políticas públicas. O crédito segue para inovação em setores considerados estratégicos para o avanço da economia”, explica. A diversidade dos projetos também surpreendeu Arbix. “Temos desde estudos de fármacos até robótica avançada para a cadeia do pré-sal.”

Gerson Pinto, vice-presidente de inovação da Natura, afirma que a estabilidade econômica está trazendo maturidade para as empresas, e isso significa disposição para planejar em longo prazo. “As atividades de pesquisa e desenvolvimento olham para o futuro”, avalia. Além de manter a estabilidade econômica, o governo, na opinião dele, precisa trabalhar para trazer mais velocidade aos projetos de inovação, facilitando o acesso ao crédito, combatendo custos altos, como os de importação de produtos para os laboratórios, e revendo as leis que atrasam os planos das empresas.

A preocupação em investirem novos produtos e processos produtivos é medida por diferentes sondagens da indústria. A elaborada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) no último trimestre de 2013 mostra que 47,9% das empresas entrevistadas declararam ter realizado algum tipo de inovação tecnológica, em processo ou em produto. Mas o índice de lançamentos ainda é baixo – menos de 15% das empresas fabricaram produtos ainda não existentes no mercado no período apurado. Outro levantamento, realizado pela CNI, mostra que os investimentos em melhorias do processo produtivo foram feitos, em 2013, por 30,6% das empresas. Já a adoção de novos processos produtivos ocorreu em menos de 6% do grupo entrevistado. O aporte em planos de introdução de produtos registrou índice de 1 1% no ano passado, menor do que o apurado em 2012 -12,1 %.

“As sondagens feitas no Brasil ainda não refletem o real impacto dos programas de incentivo. Já temos um histórico de ações que foram desenvolvidas na última década, mas as avaliações são muito superficiais”, aponta a professora Geciane Porto, coordenadora do Ingtec – Núcleo de Pesquisas em Inovação, Gestão Empreendedora e Competitividade, da Universidade de São Paulo. De acordo com ela, é importante medir como o dinheiro para inovação está sendo investido no país. Se a maior parte vai para inovação incrementai, se já temos um volume significativo de projetos disruptivos, a taxa de sucesso e insucesso. “Para corrigir os rumos, precisamos de informações mais claras. As pesquisas dizem que as empresas investem em novos produtos, mas não dá para saber se é apenas um incremento das atuais linhas ou, de fato, algo novo”, explica Geciane.

Outra questão, apontada pelo professor Marcos Vasconcellos, coordenador do Fórum de Inovação da Fundação Getúlio Vargas, está na definição de quais inovações são necessárias para o Brasil atingir seus objetivos de desenvolvimento econômico, prosperidade, bem-estar e qualidade de vida para a população. As respostas estão em ações que devem ser tomadas pelas empresas e também pelos governos, em sintonia. Segundo ele, às corporações cabe investir para absorver, de fato, novas tecnologias de produtos e processos. “E isso não se resume à compra de equipamentos.” A transferência de tecnologias para as fábricas deve resultar também na inovação das áreas de pesquisa e desenvolvimento, especialmente nos projetos atrelados à fronteira do conhecimento.

Já na esfera pública, uma revolução na educação é pré-requisito para o desenvolvimento econômico e social do país e, claro, para criar bases sólidas para a inovação. Já as políticas públicas precisam ser mais efetivas para criar condições favoráveis ao que ele chama de (re industrialização. “O momento atual exige condução de um processo de transformação de indústrias mais antigas para as avançadas tecnologicamente”, explica Vasconcellos.

Mói, do IEL, acrescenta a criação de regras mais condizentes com as necessidades de inovação. Usa como exemplo as cadeias que dependem de estudos com a biodiversidade brasileira e materiais genéticos. Nesses segmentos, os marcos regulatórios têm atrasado as pesquisas e colocado as empresas brasileiras em desvantagem. “É preocupante porque deixamos de explorar uma de nossas principais vantagens comparativas: a biodiversidade”, diz. Para ele, a falta de clareza e objetividade das leis cria problemas para a propriedade intelectual e leva pesquisas que poderiam ser desenvolvidas por aqui para outros países.

O áv
ido mercado consumidor brasileiro é um dos pontos fortes para empresas com foco em inovação. A Suvinil – que pertence à Basf- mantém um laboratório de pesquisa e desenvolvimento no Brasil e é a única unidade de tintas da Basf que atende o mercado consumidor de forma direta.

Segundo Mario Lavacca, gerente de inovação e projetos da empresa, em 2013,74% do faturamento de tintas decorativas da Basf no Brasil correspondem às vendas de produtos lançados nos últimos cinco anos. Entre os exemplos de inovação, Lavacca cita a tinta à base de água, a tinta sem cheiro e a antibactericida. O modelo de negócios também passa por constantes incrementos e tem a missão de fazer o consumidor pintar a casa ou os ambientes com mais freqüência.

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