ARTIGO: Ativismo emocional
Setor 29/10/2013

ARTIGO: Ativismo emocional

Folha de S.Paulo
Colunista: Suzana Herculano-Houzel

Eu gostaria de saber se os ativistas que roubaram beagles do Instituto Royal tomam vacinas (e um dia vacinarão seus filhos), usam medicamentos, aceitarão quimioterapia e cirurgias que salvarão suas vidas (se já não foram salvos por elas), mantêm seus corpos limpos com xampus e loções. Aposto que sim como aposto que torcem para que a ciência cure a doença de Alzheimer, o câncer, o diabetes. Ou seja: eles, como todos nós, se beneficiam da pesquisa feita com animais.

Fato é que a ciência e a medicina avançam graças à pesquisa com animais, que continua a ser insubstituível (e não me cabe aqui explicar por quê). Tantos espíritos inflamados ao redor da questão, além do fato de o roubo envolver apenas beagles e não os muito mais usados roedores, ilustram que, mesmo que haja objeção racional ao uso de animais em pesquisas, o que move os ativistas é o impacto emocional que bichos bonitinhos têm sobre eles.

Dez anos atrás, Joshua Greene mostrou, em artigo na “Science”, que decisões morais, longe do “certo ou errado” racional, são emocionais. Você empurraria uma pessoa sobre os trilhos de um trem para impedir que o trem matasse outras cinco ou deixaria que as cinco morressem como resultado da sua inação? E se a opção fosse só puxar uma alavanca, desviando o trem e fazendo com que ele matasse uma pessoa, mas salvando cinco: você puxaria ou não faria nada e assim deixaria que as cinco pessoas morressem?

É possível passar dias debatendo racionalmente a ação correta nesses casos, mas você, leitor, resolve rapidamente o que faz porque sua decisão se baseia na sua reação emocional. E quanto maior o seu envolvimento emocional com a questão, maior será a paixão com que você defenderá sua posição.

Se posições sobre certo ou errado são emocionais, então cada um tem a sua, defendida com igual veemência. Acredito que isso explica por que não há argumentos racionais que satisfaçam quem já está convencido pela sua repulsa ao pensar em bichinhos bonitinhos talvez sofrendo (“mas não ratos, argh!”). Seria necessário modificar suas reações emocionais, mostrando animais bem tratados por cientistas aos quais devemos nosso bem-estar e saúde. Mas isso não dá tanto ibope no Facebook.

Face a tanta subjetividade, ainda bem que há leis que ditam as regras e garantem a continuidade da ciência.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL é neurocientista, professora da UFRJ e apresentadora do programa Cerebrando (cerebrando.net)

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