Artigo em jornal defende investimentos em inovação contra o déficit da balança comercial do setor
Para Sociedade Setor 30/10/2017

Artigo em jornal defende investimentos em inovação contra o déficit da balança comercial do setor

Título: Déficit crescente

O Globo | Autor: EDUARDO CRUZ

O déficit da balança comercial de medicamentos subiu de US$ 1,9 bilhões, em 2006, para US$ 6 bilhões em 2016. A expectativa é de que somente os medicamentos contra o câncer, na sua maioria biofármacos, tenham crescimento de 40% nos próximos três anos. E são esses os que mais impactam a saúde pública, 100% dependente das importações.

Façamos as contas. O Brasil exportou US$ 5,5 bilhões de café e igual valor de carne em 2016. São setores importantes e tradicionais. O plantio de café ocupa dois milhões de hectares, ou meia Suíça, e a pecuária ocupa 150 milhões de hectares ou 37 Suíças. Por que comparar com a Suíça? Porque apenas duas empresas farmacêuticas do país europeu faturam juntas 20 vezes o valor somado das exportações brasileiras de café e carne.

Por que as importações e a dependência externa no setor de medicamentos não chamam atenção se geram déficit de US$ 6 bilhões e com clara tendência de aumento? Por que não utilizar parte da riqueza das exportações para buscar financiar o desenvolvimento de biofármacos no Brasil?

No setor de fármacos, há dez anos, o incentivo do governo brasileiro foi para o desenvolvimento da indústria de genéricos, ou seja, cópias. O ganho para o bolso do consumidor foi razoável no curto prazo, mas, para a economia, foi muito pequeno, e o déficit de balança comercial triplicou. As substâncias ativas nunca foram nacionalizadas, e isso contribuiu para o resultado negativo. É mais barato trazê-los da Índia ou da China. A política dos genéricos gerou emprego, renda e riqueza no exterior, de onde são importados seus principais ingredientes.

Essas cópias, os genéricos, estão sendo, ao longo do tempo, substituídos por medicamentos inovadores. A ênfase na cópia deve ser evitada com os biofármacos. Não adianta incentivar a indústria a nacionalizar a cópia. Um “biossimilar” logo será substituído por algo melhor. E quem aprende a copiar nunca irá inovar. Estará sempre correndo atrás do prejuízo.

Como então reduzir essa dependência internacional? Assim como outros países, o Brasil pode se utilizar do poder de compra do governo, incentivando empresas internacionais, detentoras de tecnologia, a estabelecer acordos com empresas nacionais e laboratórios oficiais. A estratégia, se bem-sucedida, apresentará resultados significativos na saúde, na balança e no bolso dos brasileiros. Um modelo semelhante está em curso no Ministério da Saúde, e o compromisso dos acordos inclui reduzir em até 50% o preço dos biofármacos nacionalizados em dez anos. Um ganho extraordinário.

O investimento em pesquisa de medicamentos supera US$ 200 bilhões por ano no mundo. Metade é feito fora dos Estados Unidos, e mais de 90% são destinado à pesquisa de medicamentos inovadores. Vamos participar disso ou deixar a carruagem passar?

Eduardo Cruz é diretor-executivo da Axis Biotec Brasil

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