Boas Práticas Farmacêuticas
Setor 08/08/2013

Boas Práticas Farmacêuticas

Jornalista: Antonio Celso da Costa Brandão

Os testes clínicos movimentam cerca de US$ 50 bilhões por ano no mundo. 

No entanto, devido ao baixo número de estudos no Brasil (pouco mais de 1% do total mundial), o país fica com uma pequena parte desse mercado. 

Tratam-se de pesquisas com voluntários a fim de avaliar a segurança e a eficácia dos medicamentos. 

Esses estudos são necessários para a liberação de novas drogas e, quanto mais amplos e diversificados, inclusive no que diz respeito ao tipo de população estudada, mais confiáveis tendem a ser seus resultados. 

Para facilitar a comunicação entre os centros de pesquisas clínicas e as indústrias farmacêuticas, um médico brasileiro criou uma rede social com o objetivo de conectar essas duas partes, principalmente porque pode ser difícil conseguir informações sobre as capacidades técnicas e humanas de centros de pesquisas de outras partes do mundo, inclusive do Brasil.

A rede social apresenta esses dois lados da cadeia de pesquisa de novas drogas.

Ex-diretor do programa de pesquisa em testes clínicos estratégicos globais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o médico Fábio Thiers vem reunindo dados sobre o tema há mais de dez anos. 

O site está aberto para receber cadastros de instituições de todo o mundo. 

Após a verificação da veracidade do perfil, cada centro tem uma página com dados sobre suas capacidades técnicas.

São Paulo está entre as dez cidades com mais instituições aptas a receber testes clínicos. 

Mas, segundo um levantamento dos criadores da nova rede social, menos de 50% dessa capacidade são usados.

“O desconhecimento das atividades no Brasil ainda é grande. 

Não havia uma forma fácil de os pesquisadores dividirem as capacidades de seus centros com as pessoas que planejam os estudos”, diz Thiers, criador da plataforma ViS.

Além das informações sobre mais de 400 mil centros, a plataforma agrega dados sobre a prevalência de doenças por região e outras especificidades, recolhidos por algoritmos criados pela própria ViS. 

É a partir da venda de serviços especializados que dependam desse material que o grupo pretende lucrar.

Burocracia – Além da dificuldade de comunicação, especialistas ressaltam a burocracia e a demora na liberação dos testes clínicos no Brasil como entraves à realização dos estudos. As pesquisas precisam ser aprovadas pelos Comitês Ética em Pesquisa (CEPs), pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Levantamento feito pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) indica que, de junho de 2012 a julho de 2013, o País perdeu 21 desses estudos devido à demora no processo. Estima-se que 43 serão perdidos até o fim deste ano.

Farmanguinhos sente o desgaste desses entraves. Na semana passada (15/7) a unidade conseguiu que a Anvisa liberasse a autorização para iniciar os testes clínicos para avaliar a ação do antirretroviral infantil. O medicamento reúne três princípios ativos em um único comprimido: Lamivudina 30mg + Zidovudina 60mg + Nevirapina 50mg. Apesar de a iniciativa de Farmanguinhos vir ao encontro da política da Organização Mundial da Saúde de estimular o desenvolvimento de medicamentos mais adequados aos pacientes pediátricos, a solicitação tramitou por dois anos na agência regulatória nacional.

Coordenador da Conep há pouco mais de um mês, Jorge Venâncio reconhece que há problemas, mas diz que está empenhado em corrigi-los, com um aumento no número de revisores de pedidos e melhoria no sistema de tecnologia. “O objetivo é zerar a fila de pedidos até o fim do ano.”

Para Antonio Britto, presidente da Interfarma, a iniciativa da Conep é bem-vinda, mas não será suficiente. “O Brasil é o único país em que é preciso ter a liberação de três autoridades (Anvisa, Conep e CEP). Nunca houve tanto interesse em fazer pesquisas clínica no Brasil. Mas estamos começando a desperdiçar oportunidades”, adverte Britto. 

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