Burocracia menor e câmbio vão ajudar exportação de remédios
Interfarma 08/03/2016

Burocracia menor e câmbio vão ajudar exportação de remédios

DCI
São Paulo – A redução da burocracia, aliada ao real desvalorizado, deve impulsionar as exportações da indústria farmacêutica em 2016. As indústrias já estimam aumento de receita em função de medidas do governo para facilitar os embarques de medicamentos brasileiros.
"O governo federal lançou um plano de apoio à exportação e percebemos que as empresas instaladas no Brasil, sempre muito voltadas ao mercado interno, estão com uma visão mais favorável às vendas para outros países", revelou o diretor da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Pedro Bernardo.
Segundo ele, o trabalho do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para reduzir a burocracia em torno das exportações vem ao encontro dos pedidos feitos pelos laboratórios.
A criação do Portal Único de Comércio Exterior foi uma das principais ações estabelecidas pelo governo a partir do Plano Nacional de Exportações (PNE), lançado no ano passado.
"O portal permitiu a criação de uma janela única, por meio da qual o operador [da empresa] passa a conversar com o governo uma única vez e, até meados do ano, esperamos atingir na totalidade a indexação eletrônica de documentos", afirmou o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Daniel Godinho.
Com o avanço da indexação, o governo federal espera eliminar o uso de papel no controle das operações de comércio exterior. A medida inclui a integração de 22 órgãos, que hoje fazem parte da estrutura de exportação.
Em outra frente, a Anvisa trabalha para facilitar a venda de medicamentos para outros países. A agência reguladora tem um processo específico para avaliar medicamentos destinados à exportação, de modo que os embarques sejam agilizados, contou o responsável pela Diretoria de Coordenação e Articulação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (DSNVS) da Anvisa, Ivo Bucaresky.
Ele também destacou o trabalho da Anvisa para estabelecer parcerias com agências reguladoras em outros países, facilitar o acesso a novos mercados e melhorando a reputação dos medicamentos brasileiros.
"Hoje, a visão sobre a qualidade do produto brasileiro é outra, em função do trabalho da Anvisa. É claro que precisamos aperfeiçoar parte dos nossos processos, como as nossas filas que ainda demoram muito. Mas estamos trabalhando para tentar reduzir o tempo", afirmou ele.
A maior agilidade no trabalho, explicou Bucaresky, está relacionada a dois fatores: a melhora gradual do trabalho da agência, que neste ano completa 17 anos; e a equipe disponível. Enquanto o primeiro avança com o tempo, o segundo não tem perspectiva de mudança. "A Anvisa é muito pequena para o tamanho do trabalho dela, isso aparece nas filas para aprovação de medicamentos. Nós melhoramos processos na medida do possível, mas falta gente", lembrou ele, ressaltando a necessidade de mais profissionais para acelerar as avaliações.
Estratégia
O diretor do DSNVS da Anvisa observa ainda que a inclusão do impacto econômico das decisões da agência reguladora tem sido importante para melhorar a relação com os laboratórios.
"Antes o trabalho da Anvisa tinha como único objetivo atender a questões sanitárias. Agora existe a preocupação em fazer com que as exigências sejam viáveis [para as empresas] do ponto de vista econômico", comentou Bucaresky.
Nesse contexto, especialistas do setor dizem que indústria nacional percebeu a mudança e os representantes da cadeia farmacêutica sinalizam que o ambiente de negócios – no que tange a questão regulatória – vem apresentando uma melhora.
O laboratório Teuto já estima ganhos em 2016. "A Anvisa já sinalizou a oportunidade de acordos com o Chile, Colômbia e Argentina e já estamos investindo nisso", declarou o diretor de compras e novos negócios da empresa, Albano do Patrocínio, lembrando que planos de expansão do Teuto no exterior já sofreram algumas alterações após as medidas do governo.
"Temos boa participação nos países para os quais já exportamos, mas são economias que estão sofrendo com a queda no preço das commodities", detalhou Patrocínio. A farmacêutica negocia há 10 anos com países como Angola e Moçambique, mas quer aproveitar os novos acordos para diversificar mais.
Expansão
O Teuto quer atingir a marca de R$ 1 bilhão em faturamento neste ano, superando os R$ 650 milhões registrado no ano passado. "Mesmo com o cenário [econômico] desafiador, temos grandes expectativas para 2016. Investimos muito para ampliar a nossa capacidade produtiva nos últimos dois anos para atender a uma demanda reprimida", afirmou o executivo.
A empresa inaugurou uma nova área para produção de medicamentos sólidos no final de 2015 e recebeu recentemente os equipamentos para a linha de produção de injetáveis.
Patrocínio disse que a opção por investir em injetáveis veio a partir das dificuldades que esse segmento enfrentou nos últimos anos. As exigências da Anvisa combinadas ao preço pouco atrativo fizeram muitas concorrentes deixarem a produção de injetáveis de lado.
"Continuamos acreditando no segmento e agora a expectativa é ver uma ampliação gradual da demanda. O lançamento de produtos de maior valor agregado também vai ajudar a sustentar a alta prevista para o faturamento", prevê ele.
O laboratório Cristália também planeja elevar as vendas para o mercado externo este ano. A participação das exportações no faturamento da fabricante deve passar de 8% no último ano, para no mínimo 10% em 2016, contou o proprietário da empresa, Ogari Pacheco.
"Devemos ter um desempenho melhor nas exportações em neste ano, porque estamos dando os primeiros passos para investir na transferência de tecnologia para o exterior", revelou o empresário ao DCI.
O Cristália é um dos poucos laboratórios com produção de própria de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), principal matéria-prima dos medicamentos. A menor dependência de insumos importados garante vantagem competitiva na hora de exportar, mas Pacheco procura novas fontes de receita.
"Mesmo com a produção de IFA, eu preciso importar alguns insumos, com o negócio de transferência de tecnologia eu tenho ganho livre com exportação e o gasto é apenas o investimento, que eu já faço para a produção local", comentou ele. O Cristália deve investir até R$ 60 milhões este ano, mas o aporte não inclui ampliar a fábrica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *