Imunologista defende ciência básica em entrevista ao jornal O Globo
Para Sociedade Setor 12/10/2017

Imunologista defende ciência básica em entrevista ao jornal O Globo

Título: ‘Sem ciência básica, a gente não consegue progredir’ 

O Globo | Jornalista: Sérgio Matsuura

Imunologista brasileiro ganha bolsa nos EUA e diz que seria difícil fazer suas pesquisas no Brasil. Gaúcho, o imunologista Gabriel Victora, de 40 anos, se graduou em Música na Mannes College of Music, em Nova York, mas, após retornar ao Brasil, mudou radicalmente de área. Fez mestrado em Biomédicas na USP e concluiu doutorado em Medicina na Universidade de Nova York. Com passagem pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ocupa atualmente o posto de professor assistente na Universidade Rockefeller, à frente do Laboratório de Dinâmica de Linfócitos. Victora acaba de ser anunciado um dos 24 vencedores da edição deste ano do programa MacArthur Fellows, conhecido como a “bolsa dos gênios”, que premia os escolhidos com US$ 625 mil, pagos em cinco anos. Ao GLOBO, ele se mostrou preocupado com a ciência no Brasil.

O senhor imaginava ser escolhido?

Eu acho que ninguém imagina. O programa MacArthur é um pouco aleatório, não é como o Nobel, que reconhece alguma contribuição específica para a ciência. Escolhem pessoas que acreditam ter criatividade e potencial para fazer mais.

E como o senhor foi avisado que seria um dos selecionados?

É o famoso telefonema anônimo de Chicago que todos querem receber. Eles me ligaram e perguntaram se eu poderia falar em segredo. Então, me informaram que fui um dos escolhidos. Foi meio estranho, mas uma boa surpresa.

Pode explicar sua pesquisa?

Quando o organismo entra em contato com uma substância estranha, seja uma vacina, um patógeno ou um alérgeno, uma resposta imune é gerada. No início, os anticorpos não são potentes, mas vão se fortalecendo com o tempo. O que nós estudamos é essa evolução dos anticorpos, o processo que leva a uma melhoria da potência das defesas do organismo.

E quais seriam as aplicações práticas dessas pesquisas? O senhor já sabe como aplicará a bolsa?

A principal aplicação é com as vacinas. Nós temos vacinas muito boas contra vários patógenos, como o sarampo e a febre amarela, mas para algumas doenças a gente ainda não possui vacinas, como o HIV e a malária. Sobre a bolsa, ainda não deu tempo para pensar. Eu vou começar em janeiro. Tenho tempo.

Você tem acompanhado a situação da ciência no Brasil?

Sim. É uma pena o que está acontecendo. O campo científico estava indo tão bem, aí acontecem esses cortes no orçamento. É muito difícil fazer pesquisa sem ter a certeza de financiamento estável. Acho que o pessoal no Brasil está sofrendo com isso.

Você pretende voltar ao Brasil?

O principal problema é a tecnologia. Não poderia fazer minhas pesquisas aí. Talvez no futuro. O país tem profissionais de qualidade, muito criativos. O que dificulta é a falta de financiamento e acesso a tecnologias. Sem ciência básica, a gente não consegue progredir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *