Inove ou suma
Setor 02/06/2014

Inove ou suma

IstoÉ Dinheiro
Será necessário um salto de quase 500 anos no tempo para que a GranBio chegue à melhor cana-de-açúcar possível para produzir o chamado “novo petróleo”. Mas esse salto, proporcionado por uma tecnologia que vem sendo desenvolvida pela empresa no Brasil, vai em direção ao passado, em busca da cana plantada no início da colonização brasileira. Época em que a planta tinha menos açúcar e mais celulose, composição ideal para a produção de bioquímicos e biocombustíveis da chamada segunda geração (2G). A volta ao passado vai permitir que a empresa, que é pioneira na produção de etanol 2G, a partir do bagaço e da palha, multiplique a produtividade de cada hectare plantado e reduza a dependência da indústria química brasileira do petróleo e as emissões de gás carbônico.
Para isso, o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, tem sido fundamental. “Banco comercial não financia inovação porque não consegue avaliar o risco”, diz o presidente da GranBio, Bernardo Gradin. O financiamento de R$ 10 milhões concedido à empresa para o desenvolvimento desse tipo de cana-de-açúcar faz parte dos R$ 126 milhões liberados para as diversas pesquisas desenvolvidas pela GranBio. Mas é apenas uma pequena parcela dos R$ 6,3 bilhões alocados pela financiadora em 2013 em dezenas de projetos de inovação.
A ideia é fomentar investimentos e aumentar a taxa de crescimento da economia. Na sexta-feira 30, foi anunciado o resultado do Produto Interno Bruto(PIB) referente ao primeiro trimestre deste ano. No período, a economia avançou 1,9% em 12 meses e 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2013. O volume e a demanda por financiamento para inovação vêm crescendo a um ritmo muito maior que o do PIB: em 2014, a concessão de crédito deve crescer cerca de 60% sobre o ano passado e chegar a R$ 10 bilhões.
O principal programa da Finep, o Inova Empresa, conta com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e tem uma linha de financiamento de R$ 32,9 bilhões para serem utilizados até 2015 nos setores de agropecuária e agroindústria, energia, petróleo e gás, saúde, defesa, tecnologia e sustentabilidade, com juros módicos de 3% a 6% ao ano, quatro anos de carência e 12 anos para pagamento. A demanda total é ainda maior e já chegou a R$ 93,4 bilhões. “Se realizarmos 10% dessa demanda, em dois anos teremos dobrado o investimento em pesquisa e desenvolvimento da indústria brasileira”, diz o presidente da Finep, Glauco Arbix.
Contemplada com um financiamento recorde de R$ 205 milhões, a Natura é uma das principais beneficiadas do programa. O valor será utilizado para o desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de cosméticos, com ingredientes da biodiversidade brasileira e técnicas de bioagricultura, e para a elaboração de métodos alternativos aos testes em animais. Com um índice de inovação de 67,2% – medido pelo percentual da receita proveniente de produtos lançados nos últimos dois anos –, a Natura é a única empresa brasileira a figurar entre as dez mais inovadoras do mundo, de acordo com ranking da revista Forbes, dos Estados Unidos.
É uma exceção no ambiente corporativo brasileiro: dados do IBGE mostram que apenas 4% das empresas instaladas no País investem continuamente em inovação. A fabricante de cosméticos aplicou R$ 181 milhões nesses projetos em 2013, o equivalente a 3% da receita líquida. O diretor de inovação da empresa, Gerson Pinto, que também preside a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), avalia que o Brasil fez avanços “notáveis” nos últimos anos, mas ressalva que é preciso muito mais. “Para que a indústria brasileira continue competitiva, é preciso incentivo à inovação para a pequena, a média e a grande empresa, assim como para as universidades e órgãos do governo.”
Segundo o executivo, embora fundamentais, as políticas de estímulo que existem hoje praticamente só beneficiam as grandes empresas. É o caso da Lei do Bem, que permite a dedução no imposto de renda dos investimentos realizados em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Enquanto estimula o investimento por meio da inovação, o governo Dilma também atua para reduzir o famigerado custo-Brasil. Na semana passada, a presidenta Dilma tornou permanente a desoneração tributária de 56 setores, numa renúncia fiscal de R$ 21,6 bilhões. Esse tipo de incentivo também é usado na política de fomento à inovação. No ano passado, as grandes companhias investiram R$ 1,6 bilhão em pesquisas, valor que pôde ser descontado do imposto devido.
Esse estímulo, no entanto, só pode ser usado por 9% das empresas, excluindo as que declaram pelo sistema de lucro presumido. A meta é aumentar a adoção de novas tecnologias próprias, o que o Brasil faz pouco. No ano passado, dos 205 mil registros de patentes junto à Organização Mundial de Propriedade Intelectual, apenas 661 foram brasileiras. O aumento deve vir justamente pela pressão da concorrência. “A competição internacional empurra o setor industrial para a pesquisa”, afirma o diretor de Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia, Rafael Moreira.
A Recepta, companhia de biotecnologia que tem entre seus sócios pesos pesados do meio empresarial, como Emilio Odebrecht, do Grupo Odebrecht, e Jovelino Carvalho Mineiro Filho, dono de fazendas e criação de gado, quer dar um passo além e tenta colocar o Brasil no seleto grupo de empresas que fazem pesquisas sobre o câncer. Com um aporte da Finep de
R$ 25 milhões a fundo perdido – concedido somente a projetos altamente inovadores –, a empresa espera lançar suas primeiras drogas contra a doença em cinco anos. Nas apresentações que faz sobre a companhia, o presidente José Fernando Perez se sente obrigado a incluir um slide para explicar por que o Brasil é capaz de sediar uma pesquisa tão avançada. “Temos gente competente, financiamento e infraestrutura para realizar os testes clínicos.” Por que não no Brasil?

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