Modelo de atendimento ao idoso precisa ser repensado
Setor 07/06/2013

Modelo de atendimento ao idoso precisa ser repensado

Os hospitais brasileiros, de maneira geral, não estão preparados para atender o novo perfil de pacientes, que chegam em número crescente aos atendimentos de urgência e emergência, o de pessoas idosas, muitas com 80 a 90 anos. Foi o que constatou a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), que vem promovendo seminários e debates sobre a questão desde o ano passado. Só em 2013 serão três seminários e um congresso internacional, em outubro. “Percebemos que era cada vez mais frequente a chegada dessas pessoas e elas não podem ter o mesmo fluxo dos demais pacientes. Elas demoram para andar, muitas usam cadeiras de rodas”, diz Francisco Balestrin, presidente do conselho de administração da Anahp. “Começamos a entender que deveríamos ter um novo tipo de atendimento para elas. É uma transição na saúde.”
Os hospitais, explica Balestrin, estão saindo de um momento em que predominavam pacientes mais jovens, com patologias mais simples, como traumas, para outro, formado por pacientes idosos e com maior incidência de doenças crônicas degenerativas, que fazem parte desse novo universo. A rede hospitalar também terá de passar por essa transição. A questão é como atender e em que espaço. “O espaço físico terá de ser remodelado e, como aumentou muito a base de pessoas idosas com problemas, elas precisam de leitos, de terapias intensivas e outros serviços”, diz Balestrin.
Ele se queixa da falta de incentivos para que os hospitais privados possam se preparar para atender o novo público. “Faltam linhas de crédito, projetos incentivados e desoneração fiscal”, enumera o executivo.
Para Elenara Ribas, gerente de risco assistencial do Hospital Mãe de Deus, de Porto Aletre (RS), a preparação para atender esse paciente com o cuidado necessário e rapidez envolve até a arquitetura. “Os corredores precisam ser largos, sem obstáculos. Os quartos não podem ter escadinha, banquinho”, explica. A comunicação também precisa mudar. É preciso ser claro, os documentos informativos requerem letras grandes, é necessário o uso de sinais luminosos e o paciente precisa ser ouvido.
O Sistema de Saúde Mãe de Deus adota um ciclo de atendimento que inclui a casa do idoso, onde ele é atendido por um médico e o cuidado conta com participação da família. Em caso de um quadro agudo, ele é transferido para o atendimento de emergência, onde existe uma equipe formada por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, serviços diagnósticos e farmacêutico. Se precisar de cirurgia, seguirá para o bloco cirúrgico, que conta com um terceiro médico, outro enfermeiro, técnicos e farmacêutico. No CTI, será atendido por uma equipe de médicos, enfermeiros, técnicos, nutricionistas, psicólogos, dentista, fisioterapeutas e farmacêutico.
Na unidade de internação, encontrará o médico que o atende em casa, enfermeiros, técnicos de enfermagem, assistente social, psicólogo, fisioterapeuta e farmacêutico e, antes de voltar para casa, se necessário, passará pela reabilitação, com outra equipe formada por médico, fisioterapeuta e enfermeiro. Ao todo, em quatro a cinco dias de internação, terá contato com 60 profissionais. O cuidado segue protocolos e padrões simplificados, manejo de times assistenciais coordenados, decisão compartilhada, participação do médico, do paciente e da família.
“A assistência ao idoso precisa de uma equipe de cuidado especializado para pacientes pulverizados, pois os idosos estão espalhados pelo hospital inteiro”, afirma Ivana Lucia Correa Pimentel de Siqueira, superintendente de atendimento e operações do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo.
“O time assistencial foi criado para atingir maior eficiência hospitalar.” O desafio, segundo ela, é passar de um modelo que ainda é o de atender o adulto, para o de prevenção e, às vezes, paliativo. Para Ivana, a questão chega a ser cultural. “Os países europeus, como a Espanha, avançaram muito na desospitalização e no cuidado de pacientes crônicos, com equipes que vão em casa. Mas a cultura é diferente. A Europa tem a experiência do pós-guerra, por exemplo, além de uma população mais idosa.”

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