Novo ministro foi consultor da área de saúde na campanha

Novo ministro foi consultor da área de saúde na campanha

Valor Econômico

Sai um médico político e entra um médico e empresário, com visão corporativa, pragmática e de gestão para comandar o Ministério da Saúde. Substituto de Luiz Henrique Mandetta (DEM), demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, o oncologista carioca Nelson Luiz Sperle Teich já era cotado para comandar a Pasta quando foi consultor para a área durante a campanha. Com a vitória de Bolsonaro, Teich participou da equipe de transição, mas foi preterido por Mandetta, que tinha o apoio do recém-eleito governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), e do então deputado federal e hoje ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni (DEM).

Em artigo recente, Teich relativizou o amplo isolamento social como estratégia para conter a propagação do novo coronavírus, em linha distinta à que fez Mandetta entrar em rota de colisão com Bolsonaro. Teich também acenou para a possível prescrição da cloroquina, remédio de eficácia não comprovada, sobre o qual o presidente e o ex-ministro discordavam: “Se não conseguirmos encontrar rapidamente um tratamento para a covid-19, algo que talvez os tratamentos à base de cloroquina possam representar, a cada dia que passar essa situação de confinamento, isolamento e queda econômica vai levar a uma angústia, desconforto, ansiedade e problemas crescentes e imprevisíveis”. Para Teich, a equação da crise do coronavírus também deve levar em consideração a possível mortalidade gerada pelo impacto econômico, e não apenas pela covid-19. Num vídeo que começou a circular nas redes sociais, ontem, após a nomeação, Teich demonstrou sua visão pragmática, baseada na relação entre custos e benefícios. Sugeriu que a vida de uma pessoa idosa, com doença crônica, poderia ser preterida para se salvar, com o mesmo investimento em dinheiro, a de um paciente adolescente com “a vida inteira pela frente”: “Duas coisas importantíssimas na saúde hoje são: o dinheiro é limitado, e você tem que trabalhar com essa realidade. A segunda coisa é: escolhas são inevitáveis. Quais serão as escolhas que você vai fazer?”

O escolhido por Bolsonaro para lidar com uma pandemia que mata, não só mas majoritariamente, a população mais velha é sócio da consultoria de serviços médicos Teich Health Care. O currículo é marcado pelos negócios.

Teich foi um dos fundadores, em 1990, das Clínicas Oncológicas Integradas (COI), que presidiu até maio de 2018. Seu trânsito vai além da área médica. Conta com o respaldo do ministro da Economia, Paulo Guedes, por quem foi apresentado a Bolsonaro, e do empresário Meyer Nigri, da Tecnisa. Sua indicação também tem o dedo do secretário especial de Comunicação Social, Fabio Wajngarten.

Em 2013, o grupo COI, que tinha três unidades de tratamento no Rio, investiu R$ 50 milhões para abrir outras duas, no Rio, com apoio da gestora de fundos de “private equity” Axxon Group. No ano anterior, havia faturado R$ 120 milhões e cerca de 70% dos seus 3.700 pacientes ao mês eram de planos de saúde. Em 2015, o grupo COI foi vendido para a UHG/Amil.

Teich foi sócio do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, na MDI Instituto de Educação e Pesquisa, aberta em março de 2009 e fechada em fevereiro do ano passado. Também foi consultor da mesma secretaria, de setembro a janeiro deste ano.

O novo ministro formou-se pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 1980, e tem especialização pelo Instituto Nacional do Câncer, onde concluiu residência médica em 1990. É doutor em economia da saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Em 2006, fundou a MedInsight – Decisions in Health Care (MDI), uma empresa de pesquisa e consultoria em economia da saúde, adquirida em 2011 pela Resulta CNP, que atua na área de marketing e pesquisa de mercado. Em 2009, Teich criou o COI Instituto de Educação, Pesquisa e Gestão em Saúde, uma organização sem fins lucrativos que realiza pesquisas sobre câncer, da qual é presidente pro bono. Entre 2010 e 2011, prestou consultoria para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Para o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro, com a troca de ministros, o país está vivendo “um cavalo-de-pau que tem tudo para se tornar uma tragédia”. Segundo ele, Bolsonaro escolheu a dedo alguém que se apresenta alinhado às suas ideias, desprezando o fato de que o médico não tem experiência com o Sistema Único de Saúde (SUS).

Já o ex-secretário executivo-adjunto do Ministério da Saúde, em 2011 e 2012, Adriano Massud afirma que há um segundo desafio para Teich – em paralelo à árdua tarefa de comandar a Pasta durante uma pandemia. Será o de formar uma equipe técnica em tempo recorde, que seja capaz de abrir seu caminho na gestão pública da saúde, diz o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador visitante no Departamento de Saúde Global e Populações da Escola de Saúde Pública de Harvard.