O Brasil e as cadeias globais
Setor 16/01/2015

O Brasil e as cadeias globais

Valor Econômico
Por Jorge Hori

O Brasil está amplamente inserido nas cadeias produtivas globais, como comprovam dois fatos irrefutáveis: primeiramente, a grande presença das principais multinacionais com fábricas no Brasil. Em segundo, um grande volume de importações dessas mesmas multinacionais para completar a produção e comercialização dos seus produtos mundiais, com as suas marcas.
Cadeia produtiva global é um processo de produção criado, organizado e gerido por uma multinacional. Cadeia produtiva global não é um fenômeno genérico, mas tem nome e sobrenome.
O Brasil está integrado na cadeia produtiva da Fiat, da Volkswagen, da GM, da Toyota e de todas as grandes multinacionais da indústria automobilística.
Câmbio, os custos tributários, e as insuficiências da infraestrutura afastam os investimentos
As cadeias produtivas das maiores multinacionais de defensivos agrícolas, com a presença da Syngenta, Bayer, Basf, Monsanto e outras, com as suas marcas produzidas no Brasil, mas com um grande volume de importações, feitas por elas mesmas, pesando na balança comercial.
As principais multinacionais do ramo de chocolates, do setor agro-industrial, como Nestlé, Hershey, Cadbury e Kraft Foods estão no Brasil, produzindo e comercializando as suas marcas e importando os insumos.
Dizer que o maior problema do comércio externo brasileiro é não estar inserido nas cadeias produtivas globais é uma grave miopia ou um engano, repetido acriticamente.
Visto, no entanto, por outro ângulo, o Brasil está – efetivamente – pouco inserido nas cadeias globais de suprimento ("supply chian"). É a outra forma de ver as mesmas cadeias produtivas das multinacionais. Segundo essa visão, cada unidade produtiva instalada num país não serve apenas para abastecer o mercado local ou regional (considerando os países vizinhos). É também uma base de suprimento para outras unidades mundiais. Como esse suprimento é feito por unidades de países diferentes, o abastecimento é caracterizado como exportação e o recebimento como importação. As unidades brasileiras são amplamente abastecidas pelas demais subsidiárias ou associadas do mesmo grupo, mas pouco despacham para outras unidades. Ou seja, importam, mas não exportam. O déficit comercial que aparece nas contas do setor e do país, começa com o déficit da empresa multinacional.
Essa configuração é definida pela alta administração do grupo multinacional, mas é influenciada pelas condições gerais da economia nacional e das políticas públicas.
Para as multinacionais o Brasil é um grande e atrativo mercado consumidor e nenhuma delas quer ficar fora dele, deixando-o livre para o concorrente, principalmente quando é outra multinacional. Elas não se dispõem a investir no Brasil uma unidade de suprimento mundial, dadas as instabilidades do câmbio, os custos tributários, trabalhistas, e as insuficiências da infraestrutura. Limitam-se a uma produção nacional para atender aos mínimos de conteúdo nacional.
O principal obstáculo é de natureza ideológica, que presidiu as políticas públicas ao longo de muitos anos. O Brasil sempre se posicionou contra o que é caracterizado como "plataforma de exportação". Nessas plataformas, as empresas importam mais, processam no país, e exportam parte dos produtos transformados. Com isso o déficit cambial é menor ou pode até ser positivo. Porém a ideologia dominante é que produção no Brasil só deve ser destinada ao povo brasileiro e não suprir os consumidores estrangeiros.
Isso só eventualmente se houver excedentes não absorvidos pelo mercado interno. Só deve favorecer o consumidor brasileiro, porque a produção industrial é protegida ou subsidiada, com o dinheiro desse mesmo povo.
Voltado apenas para o mercado local e regional a escala da unidade produtiva que a multinacional instala no Brasil é menor, com menor grau tecnológico e produtividade. Os ganhos de produtividade na indústria estão vinculados à escala de produção: é preciso ter megaescala para compensar os investimentos em equipamentos de última geração e utilizar mais mão de obra qualificada. Não adianta capacitar a mão de obra se essa não tiver mercado. Com escala maior, apesar do maior grau tecnológico, o volume total de empregos é maior.
Diante da ocorrência, depois de 14 anos de um déficit comercial externo, retornam propostas tradicionais e algumas novas, mas todas de pequeno efeito, de médio e longo prazo. A conquista de novos mercados, nos países emergentes é necessária, porém insuficiente. A estratégia da Apex de apoio às empresas brasileiras para se tornarem conhecidas no exterior, participando de feiras e de outros mecanismos de comercialização, também é importante, mas de pequena repercussão nos resultados da balança comercial.
A grande inflexão depende das multinacionais. Elas continuarão sendo grandes importadoras para suprir o mercado nacional, com os avanços tecnológicos e variedades necessárias. Para a redução do déficit a estratégia brasileira vem sendo de aumentar o conteúdo nacional. Essa estratégia tem sido combatida e criticada pelos custos mais elevados da produção nacional em relação à estrangeira. Uma das razões é a menor escala de produção nacional
A saída para reverter o déficit comercial no setor industrial (incluindo a agroindustria) está na revisão das estratégias das multinacionais, estimulando-as a investir e instalar no Brasil unidades mundiais, voltadas tanto para o mercado nacional como para o resto do mundo. A principal estratégia é não desestimulá-la a essa estratégia, ou mesmo reprimi-la por motivos ideológicos.
O Brasil jé está inserido nas cadeias produtivas globais, com as multinacionais presentes no Brasil. Precisa "apenas" girar o botão e passar a tê-las como as principais exportadoras: como fornecedoras das suas outras unidades no resto do mundo. Seja em países desenvolvidos como emergentes. A saída não está em novos mercados, mas os mercados das multinacionais.
As ações são de negociação do governo brasileiro com as cúpulas dessas multinacionais para estimulá-las a reverter suas estratégias. Em muitos casos não será necessário convencê-las. A Fiat já está instalando uma plataforma mundial em Goiana em Pernambuco. A Nestlé outra, para as cápsulas de café, em Montes Claros, em Minas Gerais, com algumas reações contrárias.
Quem precisa mudar de visão, em primeiro lugar, é o próprio governo, trocando as lentes dos seus óculos que ainda vê como negativo o que é a maior oportunidade.
Jorge Hori é consultor em Inteligência Estratégica

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