O jeito certo de usar
Para Sociedade Setor 21/01/2020

O jeito certo de usar

Revista Saúde É Vital

Quem nunca sacou um comprimido em casa ou no trabalho para se livrar de uma dorzinha ou qualquer outro embaraço passageiro? E tudo certo! Esse uso pontual resolve a vida e, desde que feito com responsabilidade, é incentivado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Afinal, se todo mundo com um desconforto, nariz escorrendo ou enjoo corresse para o pronto-socorro, não haveria sistema de saúde que suportasse a demanda. É aí que entra o papel dos MIPs, sigla para medicamentos isentos de prescrição, aqueles que ficam à mão nas prateleiras das farmácias.

Segundo dados da consultoria global Iqvia, essa classe representa 31% do mercado farmacêutico como um todo. Entre os remédios mais vendidos estão os que tratam dores, febre, resfriados e problemas gastrointestinais, além de vitaminas e suplementos. É bem provável que você ou um familiar já tenham recorrido a pelo menos um dos três campeões de vendas por aqui até outubro de 2019, de acordo com a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma): o analgésico e relaxante muscular Dorflex, o antigripal Cimegripe e o anti-inflamatório em formato de emplastro Salonpas.

Mas o que faz com que uma medicação receba aval para qualquer um de nós poder utilizá-la sem indicação médica? Em outras palavras, o que os MIPS têm em comum? \”Basicamente, a toxicidade reduzida nas doses terapêuticas e o histórico de uso seguro\”, responde o toxicologista Sérgio Graff, diretor médico da Toxiclin, empresa especializada em reações e intoxicações por fármacos. \”Para entrarem nessa categoria, os medicamentos devem ter efeitos adversos com causas conhecidas e reversíveis após sua suspensão, baixo potencial de toxicidade e de interações medicamentosa e alimentar, período de uso bem determinado, fácil manejo, além de não causar dependência\”, resume Marli Martins Sile- ci, vice-presidente executiva da Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip).

Segundo ela, existem atualmente cerca de 50 substâncias aptas a serem MIPs, e o número deve aumentar. Em 2016, a Anvisa aprovou uma resolução que permite aos laboratórios solicitarem a alteração da classificação da categoria de venda de um remédio a qualquer momento — no entanto, a análise da requisição é longa e complexa. Para tentar agilizar o processo com a agência reguladora, a Abimip criou, em parceria com a Gerência de Farmacovigilância da própria Anvisa, uma ferramenta que consolida os pedidos relacionados a um mesmo princípio ativo, ainda que sejam de empresas diferentes, o que deve gerar uma decisão mais célere. O processo está em fase de implementação. Mas e os brasileiros? Têm feito um uso adequado dos MIPs? Uma pesquisa realizada pela Abimip em parceria com a Iqvia mostra que, depois de até três dias com sintomas persistentes e não resolvidos com a medicação, 85% deles procuraram um profissional — a atitude recomendada pelo Ministério da Saúde. \”Esse dado nos deixa extremamente otimistas por revelar que a população tem praticado o autocuidado de forma responsável, consciente e segura. Um consumidor mais esclarecido também representa um país mais saudável e desenvolvido\”, avalia Marli.

O mesmo levantamento constatou que 77% dos cidadãos pedem orientações ao farmacêutico no momento da compra dos MIPs. \”Isso reforça o papel educativo desse profissional, que tem contato direto com o consumidor\”, analisa a VP da Abimip. Vale lembrar que até os remédios vendidos soltos nas drogarias têm bula e instruções de uso — é só pedir ao atendente. O problema é que nem todo mundo lê o que está dentro e fora da embalagem… E, convenhamos, a própria bula contém trechos por vezes alarmantes.

Por isso, o médico Luiz Fernando Aranha Camargo, do Hospital Israelita Albert Eins- tein, em São Paulo, julga que podería haver avisos mais claros sobre o uso correto e os principais efeitos colaterais nas próprias caixas dos MIPs. \”Isso ajudaria o público a estar mais ciente de alguns riscos. Quem tem insuficiência renal, por exemplo, deve tomar cuidado com anti-inflamatórios\”, justifica. Até porque tudo se resolve com mais informação. \”Temos ferramentas para educar a população, basta foco e muita consistência na comunicação por meio da indústria farmacêutica, veículos de comunicação, farmácias, entidades de classe e poder público\”, argumenta Cesar Bentim, publicitário e consultor no segmento farmacêutico há 25 anos.

Além do empoderamento do paciente, o uso de MIPs tem impacto na saúde coletiva e nos cofres do país. Uma análise publicada no Jornal Brasileiro de Economia da Saúde concluiu que, para cada real gasto com um MIP, são economizados até 7 reais com consultas desnecessárias e perdas de dias de trabalho. Fazendo as contas, dá ao redor de 400 milhões de reais poupados ao sistema de saúde por ano. Nessa linha, um estudo da Associação Regional de Medicamentos de Venda Livre da América Latina atesta que, em 2018, 3 bilhões de dólares foram gastos por Brasil, Argentina, Chile, México e Colômbia em situações que poderiam ser sanadas com um MIP — só o resfriado correspondia a 45% desse total. É um custo passível de racionalização, ainda mais tendo em vista as limitações dos orçamentos públicos.

Mas como saber quando dá pra contornar um mal com um remédio desse tipo e quando é preciso visitar o consultório ou o posto de saúde? A resposta está naquela frase narrada no fim dos comerciais e que a gente quase nem ouve direito: se persistirem os sintomas, um médico deve ser consultado. O prazo é de, no máximo, três dias para evitar que a situação se complique. Se você seguir essa recomendação, nem precisa se preocupar achando que os MIPs irão mascarar sinais de algo mais grave. \”Geralmente, eles não são capazes de atenuar tanto os sintomas a ponto de esconder o problema e atrasar a resolução\”, afirma Camargo. Exemplo: se a dor de garganta for de origem bacteriana e precisar de antibiótico, a dor e o inchaço continuarão mesmo diante de analgésicos e anti-inflamatórios.

Contudo, algumas pessoas devem ter precaução antes de comprar ou tomar qualquer produto vendido sem receita. Entram nesse grupo as gestantes, os idosos e os doentes crônicos (que já tomam outros fármacos). Nesses casos, existem riscos que vão de repercussões no desenvolvimento do bebê a interação medicamentosa, capaz de bagunçar o organismo. Mas é fácil resolver: basta consultar o médico e contar com o aval dele antes. Pois é, munidos de informação, conseguimos remediar melhor os perrengues que o corpo pode enfrentar no dia a dia.

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