Onde a crise tem remédio

Onde a crise tem remédio

Revista Você SA
Na contramão do movimento feito por tantos profissionais qualificados que, decepcionados com a crise política, têm deixado o país para atuar no exterior desde 2014, a economista paulistana Fernanda Machado, de 40 anos, trocou em maio deste ano um posto de vice-presidente numa entidade de tecnologia médica nos Estados Unidos pelo cargo de diretora de Acesso ao Mercado da Sanofi no Brasil. Para a executiva, com mais de 15 anos de carreira na área de saúde, as dificuldades econômicas que o Brasil enfrenta representam uma oportunidade de aprendizado profissional. "É um momento de conter e redirecionar gastos, mas principalmente de melhorar a comunicação, de olhar para o mercado de forma mais inteligente e definir o que é prioridade de fato para acelerar a busca por alternativas. Tem beleza na crise também", afirma.
Recém-criada na Sanofi, a área responsável pelas estratégias de acesso aos mercados público e privado tem 15 funcionários e previsão de chegar a 20 em 2017. O lançamento de novos produtos no mercado brasileiro, como a vacina contra a dengue, a chegada da nova geração de insulina de longa duração e o tratamento para o colesterol alto, também aquecem as contratações na empresa. "Apenas no primeiro semestre deste ano, as admissões de gerentes e diretores para novas posições aumentaram 4-3% em relação ao mesmo período de 2015", diz Rosilane Purceti, diretora de recursos humanos da Sanofi no Brasil. Com sede em São Paulo, três fábricas no interior do estado e 5 000 funcionários, a unidade brasileira da Sanofi registrou um faturamento de 1,1 bilhão de euros no ano passado. O valor não inclui as receitas da Merial, empresa de saúde animal da Sanofi. E a previsão é continuar investindo no crescimento dos negócios do grupo no Brasil. Um dos principais exemplos disso é o centro de distribuição de Guarulhos (SP), inaugurado no ano passado e que deve receber aportes de 200 milhões de euros até 2020. "Embora, no momento, o país esteja sentindo o impacto da crise econômica, sabemos que o mercado brasileiro tem um enorme potencial e não perdemos de vista o longo prazo", afirma Rosilane.
O atual momento da indústria farmacêutica no Brasil também trouxe de volta ao país o administrador de empresas Wilson Nascimento Júnior, de 29 anos, recéni-promovido ao cargo de diretor de negócios para o consumidor no laboratório Libbs, onde trabalha desde 2006. Até o fim do ano passado, Wilson estava em Miami, nos Estados Unidos, como parte do projeto de internacionalização da farmacêutica brasileira. Mas. como aquecimento do mercado nacional, retornou a São Paulo para assumir sua nova posição no fim de 2015. "Apesar da crise, o mercado continua crescendo no Brasil, especialmente para as empresas com uma estratégia sólida", afirma. Wilson não foi o úriico caso de promoção na companhia. "Só neste ano, considerando apenas cargos de liderança, 22 vagas já foram trabalhadas, sendo 12 para diretores", afirma Madalena Ribeiro, diretora de RH da Libbs.
Atualmente, a Libbs está com seis vagas abertas nas áreas de pesquisa científica, validação, marketing e pesquisa e desenvolvimento – esta última para o cargo de diretor. "Como há poucas indústrias farmacêuticas com área de P&D no Brasil, a posição de direção nessa área tem sido difícil de preencher", afirma Madalena. Com 2 451 funcionários e faturamento de 1,3-3 bilhão de reais em 2015 – quase 10% a mais que 2014 – a Libbs tem planos de inaugurar a sua primeira unidade de medicamentos biológicos no mês de novembro, em São Paulo. É um investimento de 500 milhões de reais, destinados à construção da fábrica e à condução de estudos clínicos. "No Brasil, o mercado de biológicos cresceu 26% em três anos", diz a diretora de RH, referindo-se ao desenvolvimento de medicamentos pela via da biotecnologia.
Faturamento em alta
Olhando esses números, parece que a crise que abala o Brasil tem remédio. Pelo menos no que diz respeito ao setor farmacêutico, que faturou cerca de 66 bilhões de reais entre abril de 2015 e março de 2016, um crescimento de 10% comparado com o mesmo período um ano antes, segundo dados do IMS Health compilados pela Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). Ao contrário de outras indústrias, as contratações na área farmacêutica aumentaram quase 20% no último ano, puxadas pelo avanço dos medicamentos genéricos e —I pelo crescimento do segmento de biotecnologia médica. "Os genéricos têm impulsionado as vendas no setor, assim como o desenvolvimento de novas moléculas", afirma Francisco das Chagas Almeida, presidente da Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), que representa 145 distribuidoras de medicamentos, produtos para a saúde, artigos de higiene pessoal e cosméticos, chegando a uma cobertura de 96% dos municípios brasileiros. De janeiro a abril de 2016, essas empresas faturaram 5,18 bilhões de reais com a comercializa-—^ ção de 304,9 milhões de unidades de remédios, um aumento de 21,7% no faturamento e de 16% em medicamentos vendidos, em relação ao mesmo período do ano anterior. "Nos últimos 12 meses, o Brasil ganhou 1 000 novos pontos de venda, o que também se reflete no aumento das contratações no setor", diz Francisco.
Não que a indústria farmacêutica não tenha encontrado dificuldades no cenário recente. O desempenho do setor foi prejudicado pela alta do dólar, uma vez que 80% dos insumos são importados, e pelo encarecimento da energia elétrica, que elevou de forma significativa os custos de produção. Com seu mercado dividido entre varejo (69%) e institucional (31%), a indústria farmacêutica ainda enfrenta outro problema: em dezembro de 2015, as dívidas acumuladas pelos governos estaduais e federal chegaram a quase 1 bilhão de reais. Mas, com uma população de mais de 200 milhões de habitantes cada vez mais longeva, o país continua a ser visto como um mercado estratégico, que merece investimentos visando ao longo prazo.
Promoções
Considerada a maior empresa mundial de biotecnologia, com sede na Suíça, a Roche é uma das companhias que refletem a vitalidade da indústria farmacêutica no país. Com mais de 1 300 funcionários em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, em 2015, a Roche faturou 2,6 bilhões de reais no Brasil, 10% a mais que em 2014, e anunciou um investimento de 300 milhões de reais nos próximos cinco anos na fábrica que mantém na capital fluminense. Com isso, a produção deve crescer em 10% a partir de 2017. "A planta do Rio se transformará em um corredor de exportação de alguns produtos para toda a América Latina e, potencialmente, para as demais regiões", diz Denise.
Para dar conta desse crescimento, em 2015 a Roche contratou 57 profissionais para cargos gerenciais e acima. Das vagas abertas, 46% foram preenchidas por candidatos externos e 54% por pessoal interno. "Alguns profissionais nossos foram “exportados” para outras unidades da companhia, gerando oportunidades rio Brasil para os sucessores", afirma Denise Morato, diretora de RH da Roche Farma Brasil. E esse movimento continua. Só neste ano, a companhia já abriu 36 vagas de liderança e está, atualmente, com cerca de dez posições de gerência disponíveis nas áreas corporativa, de marketing e vendas. Além disso, 152 colaboradores foram promovidos em 2015. Neste ano, um dos promovidos foi André Ueno, de 32 anos, que assumiu em janeiro a posição de gerente da recém-criada unidade de imunoterapia do câncer, na divisão de oncologia e hematologia, em São Paulo. "O grande marco do meu crescimento foi a participação no programa de job rotation, quando ocupei a posição de gerente de território por um ano. A partir dali, passei a focar meu desenvolvimento para a posição de gerente de unidade de negócios", afirma André, que hoje lidera uma equipe de 11 pessoas e espera dobrar esse número no próximo ano. "É gratificante contar uma história de crescimento profissional mesmo com o ambiente muitas vezes desfavorável no país."
Fusões
Um dos fatores que movimentam o mercado de trabalho da indústria farmacêutica no Brasil são as fusões e aquisições no setor, que somaram mais de 300 bilhões de dólares em 2015, novo recorde no segmento, conforme o levantamento Firepower Index and Growth Gap Report 2016, da consultoria Ernst & Young (EY). Para os próximos anos, a perspectiva de novas parcerias estratégicas entre companhias farmacêuticas permanece alta. Segundo a 19a Pesquisa Global com CEOs, lançada em março pela consultoria PWC Brasil, 62% das empresas do setor pretendem realizar fusões, aquisições e joint ventures até março de 2017. O estudo indica também que, entre os líderes ouvidos, os da indústria farmacêutica e de biociências são os mais otimistas quanto ao futuro, mesmo percebendo mais ameaças hoje que no passado. No tocante às contratações, a pesquisa registra que dois terços das companhias farmacêuticas pretendem ampliar o quadro de pessoal nos próximos anos.
Nessa previsão, entra a unidade brasileira do laboratório francês Ser-vier, que até 2021 espera contratar ao menos 200 novos colaboradores, alcançando um aumento de 33% no atual quadro de 600 funcionários. "Essa previsão é bem conservadora, já que as vagas serão distribuídas entre a sede, no Rio de Janeiro, e as demais regiões do país", diz Christophe Sabathier, diretor-geral do Grupo Servier no Brasil. Ele explica que a crise não afeta tão diretamente o laboratório, já que não se trata de uma empresa de capital aberto, com ações negociadas na Bolsa de Valores. "Nosso modelo de negócios é diferente. O laboratório é uma fundação privada, sem fins lucrativos, que investe 100% do lucro em pesquisa e desenvolvimento", diz. A organização pretende transformar o mercado brasileiro em um de seus cinco maiores no mundo e, para isso, planeja mais do que duplicar o faturamento no país, passando de 305 milhões de reais neste ano a 810 milhões de reais em 2021 e chegando a 2 bilhões de reais em 2026. "São números que se revertem em benefícios para o país, devido ao nosso modelo do negócio", afirma Christophe. O mercado de trabalho brasileiro agradece.

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