Telemedicina quebra resistências e ganha espaço no isolamento

Telemedicina quebra resistências e ganha espaço no isolamento

Valor Econômico

As tecnologias de telemedicina ganharam espaço no setor público e privado de saúde no Brasil nesta crise. A necessidade de isolamento social impulsionou fortemente o uso dos recursos digitais para atendimentos e troca de informações entre profissionais da medicina. “Estamos atendendo 600 pacientes por dia pelo pronto-socorro digital Einstein Conecta, só de casos que não são ligados ao covid-19”, diz Eduardo Cordioli, gerente médico de telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo Cordioli, 85% desses pacientes recebem orientação a distância, e deixam de ir ao pronto-socorro físico, desafogam o atendimento presencial e evitam exposição desnecessária em meio à pandemia. Além disso, o hospital realiza cerca de 1 mil consultas médicas a distância por mês. “Há uma série de especialidades que podem ser muito bem-atendidas pela telemedicina, como dermatologia, oftalmologia e diagnóstico por imagem”, avalia.

Até práticas como exames abdominais, que exigem a presença física, poderão, no futuro, ter alternativas seguras para consulta a distância, prevê Cordioli. “O que vimos até agora, é a ponta do iceberg”, diz.

Guilherme Weigert, presidente da Conexa Saúde, plataforma de telemedicina usada por hospitais e operadoras de saúde, diz que houve um salto na utilização do serviço nas últimas semanas. “Estamos prestando de 5 mil a 6 mil atendimentos por dia”, explica.

A empresa fechou parceria para oferecer a solução a associados da Sociedade Brasileira de Cardiologia, e também planeja ampliar suas ofertas em novas áreas, como a realização de teleconsultas para pacientes sem acesso a planos de saúde. Weigert acredita que a experiência do público com a telemedicina durante o período da pandemia deve reduzir a resistência do brasileiro contra essa modalidade. O crescimento rápido anima a Conexa Saúde para sua quarta rodada de captação de seed money, prevista para ser realizada entre o final de abril e o começo de maio.

As ferramentas de telemedicina também têm servido de apoio à rede de saúde, na linha de frente de combate ao novo coronavírus. O Hospital das Clínicas de São Paulo, instituição de referência no tratamento da covid-19, vem promovendo o contato de suas equipes de especialistas com médicos dos hospitais Ipiranga, Mandaqui, Vila Penteado e do Hospital Regional de Osasco. Até o final de abril, outras seis unidades de saúde seriam incorporadas à chamada TeleUTI.

A TeleUTI funciona como uma rede fechada, sem acesso público, e foi desenvolvida pelo hospital, com o apoio da Rede Nacional de Pesquisa. Seu objetivo é reunir mais de 100 hospitais do Estado, para que os profissionais discutam casos mais graves da covid-19 e troquem sugestões.

“Já vínhamos estudando esse projeto desde o ano passado, como prevenção a possíveis pandemias, e o processo foi acelerado em função do tsunami provocado pelo novo coronavírus”, explica Carlos Carvalho, diretor do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas.

Para Marco Antonio Gutierrez, líder do Laboratório de Informática Biomédica do Incor, a emergência sanitária do Covid-19 vai provocar uma discussão na sociedade sobre a regulamentação da telemedicina no Brasil. Segundo ele, há um potencial enorme para uma série de serviços, como o telemonitoramento de pacientes. O próprio Incor trabalha no desenvolvimento de um oxímetro, aparelho que mede a saturação de oxigênio no sangue, que seria equipado com conectividade bluetooth, para reduzir a exposição dos enfermeiros à covid-19, permitindo que acompanhem os indicadores do paciente sem entrar no quarto.

“Nem todas as especialidades poderão fazer atendimento a distância, e temos que discutir pontos importantes, como a proteção aos dados e à privacidade dos pacientes”, destaca Gutierrez. “Mas há uma grande expectativa que a regulamentação definitiva venha a ser aprovada depois da crise.” Na prática, a telemedicina é regulamentada no Brasil desde 2002, pelo Conselho Federal de Medicina. No entanto, o Ministério da Saúde editou portarias liberalizando o uso da tecnologia, temporariamente, durante a pandemia. Além disso, uma nova lei foi aprovada na Câmara e no Senado, e aguarda sanção presidencial. De acordo com a nova legislação, o CFM deve regulamentar a prática. “A expectativa é que a regulamentação definitiva aconteça no segundo semestre”, explica Donizetti Giamberdino Filho, vice-presidente do CFM.

Giamberdino ressalta que a telemedicina nunca poderá substituir inteiramente o atendimento presencial, e que a prática precisa ser implementada com segurança, dando preferência ao uso em consultas de acompanhamento ou de teletriagem.

“Vamos estudar os erros e acertos na adoção da tecnologia, para estabelecer uma regulamentação que seja melhor para a medicina e para a sociedade brasileira”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *